sábado, 8 de outubro de 2011

Cracolandia SP : Um pedacinho do umbral aqui na terra

Os espíritas chamariam de umbral, os evangélicos chamariam de inferno, 
os católicos de purgatório, não importa, todas as opções anteriores definem 
o que é aquele lugar.
Dor, sofrimento, gritos silenciosos pedem socorro e a sociedade ignora.
Grande parte dos que estão ali quer ser resgatada, sofre, não tem força e
nem sabe como sair, para onde ir, como recomeçar, quem vai os aceitar?
Então é bem mais facil continuar preso nas correntes do vício acomodando-se
numa situação que não oferece nenhuma esperança de vida.
O local é uma verdadeira feira livre. Comercializa-se além da pedra inteira (chamda de bloco)
pequenos pedaços que são chamados de "trago", isqueiros, 
pedaços de canos de antena de tv para confecção de cachimbos, folhas de alumínio
roupas, objetos de uso pessoal, cachaça para atenuar a fissura ou amenizar os efeitos 
de um coração muito acelerado.
No momento em que usam se transforvam, alguns ficam violentos,  outros tem
a visão e audição aberta a outra dimensão,normalmente acontece a noite.
No dia seguinte quando o uso diminui e a depressão bate,
alguns até são solidários com os outros
e  se comovem com as suas mazelas e falam em parar, mas cadê a coragem de
encarar a família e a sociedade? Qual ponto de partida? Que tábua de salvação agarrar?
Muitas vezes via pessoas chegando bem arrumadas, com dinheiro para comprar comigo, 
no dia seguinte estava maltrapilha oferecendo seus tênis em troca de pedra, verdadeiros
 zumbis humanos, sem o mínimo dominio da  própria vontade.
Aquilo me fazia sentir a pior das criaturas, pior do que me destruir, estava destruindo também
e me deprimia. Foram os 3 piores meses de minha dependência,os que acumulei mais culpa. mas também foi o que mais me incentivou a querer parar.
Mas o umbral existe, estive lá antes do desencarne desta existência, tomei um drink com
o chefão do "vale dos nóias" (diabo) e voltei ilesa porque Deus é comigo, assim como foi com Ló
(não permitiu que tocassem em minha vida).

dezesseis dias...

O crack não respeita classe social

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Vencendo a dependência ( minha história- final)





Durante o tempo em que morei na casa dos meus sogros tive todo carinho e cuidado
da parte deles. Sempre prestativos e preocupados eles me levavam todos os dias para igreja.
Com retorno ao convívio social e o amor pelo bebê fui me recuperando. Mas não saía sozinha.
Sempre de casa para igreja acompanhada dos sogros ou marido.
Nossa casa estava sendo construida e estava em fase de acabamento.
Um ano e meio depois quando já estavámos morando na casa,  já estava segura de mim, 
achando que "estava curada" do vício me vi sozinha ( sem a liberdade vigiada ) e com 
todas as ferramentas que a doença usa para nos manipular sem que percebamos.
Um dia de domingo, um calor de rachar e achei que poderia tomar uma cervejinha...
"Uma só não ia fazer mal, afinal já fazia mais de um ano e nem sentia vontade de me drogar..."
Puro engano...
Quando me dei conta já estava junto de outros antigos colegas usuários, e nem sabia 
direito como tudo aconteceu nem como havia ido procurar a turma. O álcool havia  despertado
a memória química da droga no organismo trazendo a inevitável recída.
Daí  bateu o arrependimento.
Voltei para casa no dia seguinte, começaram as brigas e tudo desandou...
Depois deste dia as recaídas têm acontecido a cada 1 mes e meio, 2...
Ontem fui procurar um Caps aqui na cidade me pediram para voltar na segunda com a 
documentação para o inicio do tratamento. Estou esperançosa.
Demorei para fazer isso. Sozinho ninguém consegue nada. 
Descobri que para vencer a doença, não tenho que perder minha identidade, isso  fez-me muito mal. Quero olhar para o espelho e ver uma mulher "vaidosa" e forte, reconhecer nele minha essência e não uma personagem criada pelo fanatismo . Do contrário não estou estacionando a doença e sim anulando minha existência.
Não quero me deixar manipular a ponto de não ter o direito de escolha.
 ( livre arbítrio) só por ser dependente química.


E é isso...


"Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, 
coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".

O que veio depois...(minha história - parte 2)

Estava muito viciada.
Depois de 3 meses já havia perdido tudo, emprego dignidade, respeito, auto-estima.
Eu que sempre me orgulhei de ser tão independente e auto-sustentável, que cheguei a
publicar um livro de poesias, estava ali destruida pelo vicio. Todos se afastaram inclusive 
os da família a quem eu era muito ligada.
Resolvi mudar tudo, saí da cidade tentei uma vida nova com meu filho a quem tanto fiz sofrer,
na época já adolescente.
Passei uns 4 ou 5 meses limpa, arrumei emprego, aluguei uma casa e recomecei a vida ao
lado de um rapaz evangélico, porém eu era espírita kardecista e isso trouxe muitas brigas e 
rejeição  por parte da família dele que é evangélica pentecostal, aos quais ele é muito ligado.
Ainda assim seguimos aos trancos e barrancos. Abandonei o centro espírita com tristeza na alma
até uma recaída minha e ele descobrir tudo.
Ficou do meu lado contra a todos e prometeu ajudar.
Muitas coisas aconteceram e dois anos depois me entreguei à droga diariamente. 
A familia pressionou, nos separamos, descobri que estava grávida e  mesmo assim fui parar na cracolândia deixando meu filho mais velho aos cuidados de uma irmã. 
Contei a uma amiga através da internet sobre o bebê e meu marido ficou sabendo.
Passava dias a me procurar por lá, gastando dinheiro com falsas informações.
Eu vendia drogas durante o dia para pagar a diária de uma pensão onde a noite ia para me drogar.
A policia não me parava por causa da barriga e eu vendia muito, era querida pelos "patrões".
Pensava em voltar, tinha medo, vergonha, mas também pensava no bebê.
Já estava no sétimo mês de gestação quando tomei coragem e resolvi voltar.
O bebê nasceu saudável e tem hoje 1 ano e 10 meses, é a coisa mais linda do mundo.
Fiquei 1 ano e meio limpa até a primeira recaída.
Mas não me entrego, nada está perdido.


Ps: hoje estou limpa há 15 dias desde a última recaída.

O primeiro contato ( minha história-parte 1)

Vou tentar resumir tudo para que o texto não fique muito cansativo.
Tudo começou no ano de 2006 logo depois que o brasil perdeu a copa.
Na época eu morava com um homem havia 2 anos.
Eu sabia que ele era depedente químico, mas nunca o vi usando nada.
Ele sumia,  ficava muito tempo longe de casa e aparecia dias depois todo arrependido e eu o perdoava.
Até que um desses dias eu saí do trabalho e fui com algumas amigas a um bar tomar uma cerveja, estava triste, de cabeça quente por tudo que estava acontecendo.
Cheguei em casa ele estava trancado no banheiro e pela primeira vez desconfiei que ele estava usando dentro de casa. Estava.
Saiu do banheiro com uma lata de cerveja amassada e em cima dela cinza de cigarro e uma pedra amarelada que ele queimava com um isqueiro, depois de dar uma tragada empurrou a lata em minha boca e disse categórico fuma!
Fumei, reação instantânea, euforia, prazer, auto-confiança e em seguida a vontade de mais.
Perguntei então o que era aquilo e ele me informou que era crack.
Eu já tinha ouvido falar mas não sabia o que era até aquele maldito momento.
Foi neste dia que minha vida começou a se destruir.